Quarta-feira, Novembro 03, 2004

A Pequena Mulher de Verde

Pode ser que um dia a mulher de verde abra a sombrinha que carrega à espera de um sol antigo e que enfim se queime sentada à espera de alguém. Pode ser que ela ainda dispa a lã verde triste que a cobre e descobre em mim também passos pesados de solidão. Pode ser que ela de repente desça uma ladeira leve que voe com ela para onde a pressa a leve sem compromisso.

A mulher de verde existe e não sou eu. O cabelo dela é preto oposto do meu. E no entanto o fim desta história sou eu a descrever aquilo sobre que nada sei e provavelmente sobre o que nunca acontecerá com esta mulher que limitou a sua entrada na minha vida à uma paisagem.

Quinta-feira, Outubro 21, 2004

Fantasmas em Nanterre

Isabel e Yriarta são duas estudantes de direito de vinte e poucos anos. Não têm muito em comum mas passam os intervalos no café, proferindo aquelas afirmações do gênero "não sei fazer uma equação", "tenho um professor que é bicha" e "a minha irmã é uma puta". São duas raparigas francesas que partilham as suas vidas. Elas têm os lábios frios, pintados de branco.

Enquanto isso escrevo merdas e uma rapariga vem ter comigo e propõe-me um negócio sinalagmático: "Vendes-me um cigarro" ?

L' Impossible

La sobriété d' une fable d' amour réside en la folie douce qui bouleverse et éclipse tout drame humain.

Means Nothing to Me

Para que da loucura que tanto funcionava
Pudesse escapar algo que fosse novo
Para que o tempo em que ainda fosse cedo voltasse
Uma simplicidade concebida à parte
Em que a última mensagem não fosse uma doença
E que permanecesses
E não estes detalhes até às quatro da manhã
Um dia
Cortado
Com música
Em casa.

Quarta-feira, Outubro 20, 2004

Há Sempre um Pouco de Nós em Cada Chaminé

Para aqueles que acordaram e viram uma chaminé

Enquanto dormia pensei voltar à casa. A minha casa estava diferente. Sabia que a deixara diferente mas não diferente ao ponto de o meu quarto ter operado uma manobra de multiplicação. Entrei num universo em que as pessoas deambulavam pelo meu quarto, agora duplo, em trajes menores, homens e mulheres desconhecidos com copos na mão. Dirigi-me à casa de banho. Aquela não era a minha casa de banho. Havia ali uma cama felpuda como um cão, de um amarelo deslavado preocupante. Onde estaria a minha sanita? Olhei mais um pouco à minha volta e reparei que, definitivamente, aquele não podia ser o meu quarto: em vez da janela que costumava ali estar, a minha janela valha-me-deus, estava um cacto gigante. Um cacto com uma fenda à meio. E nesta fenda, feito uma língua de jararaca, pendía um charruto cubano.
Foi então que acordei e a primeira coisa que senti foi que a minha casa ficaria à minha espera e que a sensação mais estranha com que deveria me preocupar era a de ter aberto os olhos e visto uma chaminé a embalar a madrugada, afável, naquele fumo que pinta o céu de Paris.

Sábado, Setembro 25, 2004

Tu e Eu Somos Claramente as Coisas que não se Dizem

A amizade verdadeira é um longo torneio de ping-pong em que, no espaço de meio segundo, a bola, no ar, entre nós, é uma cabeça redonda que define os limites entre as minhas necessidades e as tuas. E a bola pode cair de vez em quando, pode tocar na mesa que é um palco diferente onde estão os outros e, por vezes, onde não queremos ser amigos mas, caia na mesa, caia no chão ao nosso lado ou atrás de nós, recomeçamos simplesmente porque isto da vida e das coisas que ela contém é muito grande para sermos sempre vencedores ao mesmo tempo. Hoje perdeste, amanhã será a minha vez.
Gosto de acreditar que para além da metáfora (talvez infeliz) do jogo, está algo bem verdadeiro porque odeio desporto, odeio bolas e odeio mesas de ping-pong. O que eu queria dizer é que por vezes conseguimos falar de algo importante se o compararmos a uma coisa que não nos desperta interesse mas sim, curiosidade suficiente para dar-lhe um significado, para decorá-la e apropriarmo-nos de um sentido que não só a faz renascer mais bela como também mais nossa.
Estas são as coisas que não se dizem. Haverá outras mais que, se não forem escritas, simplesmente não se dizem para sempre porque o para sempre sempre acaba com o esquecimento, o desvio, a falta profunda que faz a todos... mais tempo.

Terça-feira, Setembro 14, 2004

Barbacena parte 1

Uma pequena homenagem do nosso querido Chayanne para todos os toreros e toreras deste mundo...

De lunes a domingo voy desesperado
el corazón prendido en el calendario
buscándote y buscando como un mercenario
tu dime donde estás que yo no te he encontrado
Tus manecillas giran yo voy al contrario
comiendome la vida a sorbos y a tragos
me viste así de frente que tremendo impacto
para unirme a tu mirada dime si hay que ser....
Torero,
poner el alma en el ruedo
no importa lo que se venga
pa´que sepas que te quiero
como un buen torero
me juego la vida por tí....
Si hay que ser
Torero
poner el alma en el ruedo
no importa lo que se venga
pa´que sepas que te quiero
como un buen torero
me juego la vida por tí....
Y te cuentan que ya me vieron en solitario en un callejón
que ya no duermo y desvarío que el humor ya me cambió
y tu por donde estas que mi presión ya no me va
te buscaré, vuelve conmigo
y que tu no sabes
que yo te necesito como el perro al amo
que si tu no respondes aqui todo es caos
me viste así de frente que tremendo impacto
para unirme a tu mirada
dime si hay que ser....
Torero,
poner el alma en el ruedo
no importa lo que se venga
pa´que sepas que te quiero
como un buen torero
me juego la vida por tí....
Si hay que ser
Torero
poner el alma en el ruedo
no importa lo que se venga
pa´que sepas que te quiero
como un buen torero
me juego la vida por tí....
En noviembre hasta enero
si que te necesito
Ay! de junio a febrero
quiero que estés conmigo
y en marzo el amor
en diciembre tu y yo
no importa mi amada
si hay, si hay que ser....
Torero,
poner el alma en el ruedo
no importa lo que se venga
pa´que sepas que te quiero
como un buen torero
me juego la vida por tí....
Si hay que ser
Torero
poner el alma en el ruedo
no importa lo que se venga
pa´que sepas que te quiero
como un buen torero
me juego la vida por tí....
Si hay que ser
Torero,
poner el alma en el ruedo
no importa lo que se venga
pa´que sepas que te quiero
como un buen torero
me juego la vida por tí....
Si hay que ser
Torero
poner el alma en el ruedo
no importa lo que se venga
pa´que sepas que te quiero
como un buen torero
me juego la vida por tí....


Sábado, Agosto 28, 2004

Para Sempre Jonatix

Esquecemo-nos de ti!
Uma aula de 11º, umas quantas palavras trocadas, o teu papai que é professor (oh, god), mas como foi possível esquecermo-nos de ti...?
Se calhar, foi porque és boa pessoa, se calhar foi porque transparecias mais inexistência do que os outros, se calhar...
A verdade é que hoje não sei o que foi feito de ti, sei apenas que ela lembrou-se que nos esquecemos da tua pessoa, talvez até porque foste embora sem completar dois anos de quinta, assim como a fiambra (aquela que às vezes confundia com a presunta)...
Mas não importa, querido Jonatix, nunca esqueceremos que um dia passaste por nós, nos corredores, atrás de nós nas aulas de francês, atrás de nós nas aulas de desenho...
O que dizer sobre ti, pequeno pássaro de pestanas compridas (era capaz de jurar por Deus que usavas rímel)...? Será que és feliz? Será que comes gajas (não eras tu que andavas com uma das siamesas, a Marie?!)?
Bem, prefiro dar por encerrado este pequeno pensamento em memória de ti, Jonatix.

Sexta-feira, Agosto 27, 2004

Caiu-Lhe Uma Lágrima no Sapato

Os loucos, no fundo, têm almas velhas, só que vestem sorrisos e calças amarelas. Os loucos, para além de imaginar que arco-íris resolvem dilemas, são mais furiosos do que aqueles que vivem do lado de lá. Realmente, os loucos criam menos problemas porque sabem viver num pedaço de escada, ao lado de ninguém.
Depois dos loucos, esses coitados, já não há nada. Já não é possível medir mais do que medem os loucos. Eles, só por si, são a beleza que os olhos longínquos dos do lado de cá desmancham para poder continuar deste lado, do lado de quem não recolhe lágrimas atrás de sorrisos.
Elas, as lágrimas, são diferentes. É como perguntar: "Gostas de agulhas, Filomena?". Sim, ela obviamente responderá que sim e, arrisco-me a dizer que descreverá o percurso das agulhas das mãos para as veias, falando nisso como se de lágrimas se tratasse.
Espero que todos tenham alcançado o meu propósito. Só uma última coisa, antes que se deitem e façam bons sonhos: não se esqueçam de escolher um par de sapatos confortáveis. Afinal, não somos animais.